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Para membros da nação de tribos afins

domingo, 4 de julho de 2010

Totalitarismo, conceito ampliado

Há um totalitarismo latente em toda forma de produção, em toda forma de orgainização da sociedade. No período do mercantilismo, surgiu o absolutismo dos monarcas europeus, associado ao predomínio da igerja católica e, com repressão menor, das seitas protestantes. O socialismo bolchevique gerou os comunismos da União Soviética e da China. O capitalismo gerou os fascismos e o mercado consumista global. Esses totalitarismos ocupam os espaços vazios da existência humana e de todos os seres vivos da Terra. Sem esses espaços vazios, que outros chamam liberdade, as sociedades humanas perdem a capacidade de se reformular, de evoluir em função de um ambiente em profunda mutação.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

José Saramago

Recebi do Gato, amigo, antigo companheiro do antigo PT e da CESP, este e-mail. Melhor do que comentar sobre ele, ler mais um texto seu.

O discurso de José Saramago, quando recebeu o Nobel de literatura, é muito bonito e comovente. É, por si mesmo, um conto, uma daquelas histórias gostosas de se ouvir e depois, ler com calma. Leia e guarde... e repasse, por favor.


José Saramago

Introdução do Discurso perante a Real Academia Sueca:
De como a Personagem Foi Mestre e o Autor Seu Aprendiz

Por JOSÉ SARAMAGO
Segunda-feira, 7 de Dezembro de 1998
 
O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.
Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa.
Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.
Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza". Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos.
Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprias filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.
Muitos anos depois, escrevendo pela primeira vez sobre este meu avô Jerónimo e esta minha avó Josefa (faltou-me dizer que ela tinha sido, no dizer de quantos a conheceram quando rapariga, de uma formosura invulgar), tive consciência de que estava a transformar as pessoas comuns que eles haviam sido em personagens literárias e que essa era, provavelmente, a maneira de não os esquecer, desenhando e tornando a desenhar os seus rostos com o lápis sempre cambiante da recordação, colorindo e iluminando a monotonia de um quotidiano baço e sem horizontes, como quem vai recriando, por cima do instável mapa da memória, a irrealidade sobrenatural do país em que decidiu passar a viver. A mesma atitude de espírito que, depois de haver evocado a fascinante e enigmática figura de um certo bisavô berbere, me levaria a descrever mais ou menos nestes termos um velho retrato (hoje já com quase oitenta anos) onde os meus pais aparecem: "Estão os dois de pé, belos e jovens, de frente para o fotógrafo, mostrando no rosto uma expressão de solene gravidade que é talvez temor diante da câmara, no instante em que a objectiva vai fixar, de um e de outro, a imagem que nunca mais tornarão a ter, porque o dia seguinte será implacavelmente outro dia... Minha mãe apoia o cotovelo direito numa alta coluna e segura na mão esquerda, caída ao longo do corpo, uma flor. Meu pai passa o braço por trás das costas de minha mãe e a sua mão calosa aparece sobre o ombro dela como uma asa. Ambos pisam acanhados um tapete de ramagens. A tela que serve de fundo postiço ao retrato mostra umas difusas e incongruentes arquiteturas neoclássicas". E terminava: "Um dia tinha de chegar em que contaria estas coisas. Nada disto tem importância, a não ser para mim. Um avô berbere, vindo do Norte de África, um outro avô pastor de porcos, uma avó maravilhosamente bela, uns pais graves e formosos, uma flor num retrato - que outra genealogia pode importar-me? a que melhor árvore me encontraria?"
José Saramago

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Manezinho Araujo

Vocês já ouviram falar de emboladas? O restaurante Tordesilhas ( rua Bela Cintra, São Paulo) tem um ambiente chamado praça Manezinho Araujo. Aqui, uma apresentação da mais famosa embolada de Manezinho, Onde vai, valente?

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Tito Schipa

Grande tenor da primeira parte do século 20, viveu um pequeno período no Brasil, em Campinas. Veja este vídeo, uma preciosidade, de algum filme, em que ele se acompanha ao violão.

terça-feira, 8 de junho de 2010

FALSA REALIDADE

Nós que acompanhamos as notícias em jornais e na televisão e discutimos os acontecimentos como crimes, tragédias, guerras, atentados terroristas, vivemos em um mundo falso, falso como o mundo dos povos da América até um pouco depois da chegada dos primeiros europeus.

Seguimos os reflexos do que ocorre lá fora, visando estar preparados contra vicissitudes, vislumbrar oportunidades de prazer ou ganho, sentirmo-nos bem por não estarmos envolvidos em fatos tristes ou ameaçadores. Vemos um atentado na Índia, uma erupção vulcânica na Guatemala. Lemos ou ouvimos declarações de políticos e de profissionais e acadêmicos sobre fatos que supomos nos afetam de maneira imediata.

Vemos a novela, o seriado da televisão, compramos comida e aparelhinhos. Adquirir e fruir formas de cultura entre as disponíveis. Procuramos estar atualizados.


Nos indignamos (os de minha tribo) com a opressão e as agressões de corporações e governos das economias dominantes. Mas não enxergamos o que de mais importante está ocorrendo no planeta Terra.


No momento, está ocorrendo uma negociação planetária acerca do que pode ser feito em relação ao processo em curso de destruição do clima que, estável ou em lenta evolução, propiciou e sustentou até recentemente a maravilhosa diversidade de formas de vida da Terra, das várias civilizações, e da base de recursos sobre os quais tanto umas como outras evoluíram e prosperaram ao longo de sua história.


Esta negociação é tudo o que importa de fato. Deveríamos estar sendo informados de todos os fatos relevantes, do que nos está afetando no presente, futuro imediato e daqui a décadas. De qual está sendo e qual pode ser o nosso papel. A moral, a ética, a estética do planeta, através de suas mudanças graduais e dos traumas climáticos cada vez mais intensos e frequentes.